
Sou uma feminista convicta, daquelas que briga quando vê alguma discriminação, também não tão radical a ponto de abandonar o sutiã mas confesso que, depois que engravidei do Felipe, minha opinião mudou sobre alguns assuntos, ou melhor a minha perspectiva mudou. Há muito tempo atrás começou a luta das mulheres para poderem ter direitos iguais aos dos homens, muitas décadas se passaram e hoje as coisas mudaram bastante mas cheguei a uma conclusão: igualdade mesmo, jamais.
Antigamente as mulheres eram criadas pra cuidar da casa, do marido e dos filhos e esse era o seu emprego em tempo integral apesar de não receberem salário e nem terem nenhum tipo de direito trabalhista. As que buscavam realização profissional e colocavam a carreira acima da "sagrada" instituição do casamento eram tratadas com discriminação e não recebiam a mesma quantia que os homens, coisa que hoje ainda acontece em muitos lugares.
Mas o que não se sabia era que mesmo que as mulheres pudessem sair de seus doce lares para irem em busca de seus objetivos profissionais, elas jamais poderiam se desvencilhar de suas tarefas domésticas e nem da responsabilidade de educação e criação de seus filhos, com exceção das madames que tem empregada e babá é claro... Tudo apenas ficou mais difícil, vivemos em uma ilusão de que as mulheres se tornaram independentes quando na verdade ela se tornaram dependentes de um sistema no qual delegam algumas tarefas, absorvem outras e, salvo as exceções, são escravas de empregos que tomam cada vez mais cada segundo de suas vidas deixando muito pouco para sua vida pessoal.
Tenho que admitir que junto com todas essas mudanças os homens também mudaram, muitos hoje ajudam nas tarefas da casa e com os filhos, coisa que antes seria inimaginável, mas até que ponto isso é igualdade?
Hoje mesmo pela manhã me deparei com uma cena que mexeu de verdade comigo. Estava no terminal e ao meu lado sentou uma mulher com sua filha que tinha uns 5 anos de idade. A mulher estava aos gritos com a menina, revoltada porque, segundo ela, não tinha com quem deixar a filha e teve que levá-la ao trabalho. A mãe dizia que a menina era uma desgraça na vida dela, dizia que a pequena não valia nada...tudo isso na frente da criança. O que havia acontecido foi que ela foi mandada embora do serviço pois a "patrôa" não quis que ela fizesse a faxina com a menina junto. A criança andou comendo um queijo caro que era da "patrôa" e ficou gritando enquanto o patrão estava dormindo, e agora ela ia perder o serviço e consequentemente o dinheiro que precisava pra dar de comer à menina. Ela estava ainda mais revoltada pois quando chegaram ao centro a menina lhe pediu um dvd.
Eu fiquei ali imaginando o que estava passando na cabeça daquela menininha de apenas 5 anos, que segundo a mãe quebrava as coisas aos chutes e não obedecia ninguém senão a sua própria vontade, nem bater adiantava, a mãe completava inconsolada. Na hora me veio a imagem de meu filho, que tem um aninho, na creche, sendo "criado" por outras pessoas (as professoras) enquanto a mamãe sai pra trabalhar e garantir o dinheiro para o seu sustento. Isso me assustou demais, a perspectiva de ele se tornar uma "criança problema" pela minha ausência na sua vida.
Digo que minhas opiniões mudaram pois antes dele nascer eu achava que seria fácil continuar tocando a minha carreira e criá-lo paralelamente mas cada dia mais vejo como é difícil sustentar essa situação e abrir mão de estar diariamente ao lado dele educando, ensinando, cuidando. Queria que a licensa maternidade durasse 18 anos, hehehe...
Até que ponto aquela mãe do terminal podia cobrar da menina que tivesse educação se ela mesma não conseguia dar essa educação, e de que outra forma ela poderia fazer pra educar a menina e garantir o seu ganha pão? Me lembrei de uma frase de um grande amigo meu que dizia que a gente só pode cobrar de uma pessoa o que ela tem pra oferecer...
Vivemos em um mundo de desigualdades, pra todos os lados que olhamos podemos ver essa desigualdade estampada mas o que precisamos aprender é lidar com isso da melhor forma, tentar trabalhar menos e ganhar mais pra poder ficar mais tempo com nossas crianças. A geração coca-cola agora enfrenta o desafio de educar as próximas gerações e carrega consigo vários valores que com o tempo se transformarão como tudo, mas que jamais devem ser esquecidos, alguns certamente se tornarão obsoletos mas outros jamais e é preciso saber a medida certa, a dosagem certa, a hora certa, educar é verdadeiramente uma arte. Nem sempre acertamos mas precisamos nos esforçar pra fazer o melhor possível.
Desejo que haja cada vez mais igualdade tanto pras mulheres, quanto para os negros, os gays e todas as minorias que cada vez mais se transformam em maiorias mas, que haja acima de tudo, igualdade para as crianças, a geração internet, celular e fast food tem que ser cuidada, tem que ser ensinada, tem que haver uma tutoria por parte de cada pai que a coloca nesse mundo para que elas não se tornem adultos despreparados pra vida,(o que pode acontecer mesmo assim...) para que aprendam sobre respeito, gratidão, honestidade...valores que estão cada vez mais esquecidos pegando poeira nas prateleiras junto com as fitas VHS e os discos de vinil.
Limpe a poeira e aperte o play antes que seja tarde demais.